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Pesquisa da Unisc revela como a aprendizagem da leitura transforma a visão, a linguagem e o raciocínio em crianças e adultos

Dentro da programação da VII Mostra de Extensão, Ciência e Tecnologia da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ocorre no dia 29 de outubro, às 19h15, no Anfiteatro do bloco 18, a apresentação de nove trabalhos desenvolvidos por estudantes dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade. A atividade integra a VII Mostra da Pós-Graduação Stricto Sensu, que tem como objetivo divulgar os cursos de mestrado e doutorado da Instituição, por meio da apresentação de um trabalho indicado por cada Programa. 

Entre os trabalhos selecionados está o desenvolvido pela pesquisadora Kadine Saraiva de Carvalho, do Programa de Pós-Graduação em Letras, orientado pela professora Rosângela Gabriel (Unisc), e pelos coorientadores, professores Rejane Frozza (Unisc) e Falk Huettig (Max Planck Institute of Psycholinguistics – Nijmegen The Netherlands). 

O estudo avaliou tanto crianças em fase de alfabetização quanto adultos com diferentes históricos de alfabetização para mapear os impactos cognitivos dessa aprendizagem. A investigação foi motivada pelas experiências da professora e doutoranda que desenvolveu seu interesse pela Psicolinguística e iniciou seus estudos sobre o tema ainda na iniciação científica, dando continuidade, posteriormente, no Mestrado e no Doutorado em Letras. “Minha motivação também tem uma dimensão pessoal: venho de uma realidade em que muitos familiares não sabem ler porque não tiveram, na infância, acesso à educação, um direito que deveria ter sido garantido a todos”, relata Kadine. Segundo ela, essas vivências fortaleceram o desejo de investigar aspectos do processamento linguístico e cognitivo que muitas vezes passam despercebidos quando a ciência analisa apenas pessoas já alfabetizadas.

Sobre a pesquisa

A tese foi estruturada em quatro estudos para medir de que forma a aprendizagem da leitura tem efeitos na linguagem, no processamento visual e no raciocínio lógico. Ao avaliar o nível de leitura dos participantes, a pesquisa mostrou que os adultos alfabetizados tardiamente não alcançaram o mesmo nível daqueles que aprenderam a ler na infância. Isso mostra que a aprendizagem da leitura pode ocorrer em diferentes momentos da vida, mas que os percursos de alfabetização não produzem necessariamente os mesmos níveis de proficiência, uma vez que a plasticidade cerebral para aprender coisas novas vai diminuindo ao longo dos anos, o que torna essa aprendizagem um pouco mais difícil para os adultos. Além disso, os anos de escolarização são fundamentais para consolidar as habilidades inerentes à leitura.

Quanto aos efeitos na consciência linguística, a alfabetização demonstrou desenvolver diretamente a consciência fonêmica e indiretamente a consciência morfológica, havendo, nesse caso, influência das habilidades fonológicas e da escolarização. A pesquisa mostrou que a capacidade de criar palavras por meio de prefixos depende de habilidades que não estavam desenvolvidas nos adultos não alfabetizados e na maioria dos alfabetizados tardiamente, enquanto a formação de palavras por sufixos se mostrou mais intuitiva e precoce. “Esses achados mostram que aprender a ler não significa apenas reconhecer letras e palavras escritas: essa aprendizagem também pode transformar a maneira como ouvimos, manipulamos e refletimos sobre a estrutura da língua que falamos”, explica a doutora.

A pesquisa também observou, por meio do rastreamento ocular, que, entre as crianças, o avanço das habilidades de leitura e da escolarização esteve associado a uma maior tendência de explorar visualmente as informações da esquerda para a direita, inclusive em tarefas com imagens e na representação espacial da linha do tempo. Entre os adultos, essa relação foi mais restrita: a correlação entre o nível de leitura e a direcionalidade da esquerda para a direita foi significativa apenas na exploração de materiais escritos. Já no campo do raciocínio lógico verbal, os resultados revelaram que o desempenho em problemas como silogismos está mais atrelado ao tempo de escolarização e à familiaridade com o tema do que somente às habilidades de leitura. Participantes não alfabetizados apresentaram maior dificuldade em avaliar problemas hipotéticos quando as conclusões contrariavam o que vivenciam na realidade.

Para a pesquisadora, os dados trazem implicações diretas para as práticas pedagógicas, especialmente na Educação de Jovens e Adultos (EJA), alertando para a necessidade de intervenções adaptadas às trajetórias dos estudantes, sem a mera reprodução de propostas destinadas ao público infantil. “Compreender essas relações é importante não apenas para a ciência da leitura, mas também para a educação, pois permite reconhecer que a alfabetização vai além da transformação de grafemas em fonemas (letras em som): ela envolve uma aprendizagem capaz de reorganizar como processamos a linguagem e interagimos cognitivamente com o mundo”, conclui Kadine.

Fonte
Tatiane Luci Rodrigues

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